quarta-feira, 18 de março de 2009

Vida eterna


Todos os jornais anunciavam a fantástica notícia de que naquele dia não morrera absolutamente ninguém em todo o mundo, fato inédito e inacreditável.

A surpresa atingiu toda a população, em especial pessoas como Petrônio, que achavam a morte (mais especificamente a delas) era um grande desperdício - não conseguiam imaginar o mundo sem as suas fabulosas presenças.

Petrônio julgava-se de fundamental importância para o bom andamento das relações humanas e do planeta em geral e que, conseqüentemente, a única forma cabível de agradecimento divino era a concessão da imortalidade para ele.

Por isso não gostou do fato de não morrer ninguém naquele dia: em sua modesta opinião nem todos faziam por merecer tal dádiva.

Algumas pessoas brincaram dizendo que Deus estava em férias, outras rezaram preces de agradecimento e alguns até pediram para morrer um dia.

Assassinos de plantão em busca dos seus cinco minutos de fama não faltaram, mas na verdade nenhum deles conseguiu estragar um dia tão diferente.

O Presidente da República falou em cadeia nacional que a saúde pública estava melhorando, a violência estava diminuindo e o uso obrigatório de cintos de segurança estava dando bons resultados.

Joãozinho, por sua vez, achou uma grande injustiça dizerem que não havia morrido ninguém se morrera a sua tartaruga de estimação, até sua mãe explicar que a situação era diferente.

Nesse dia a grande maioria da população dormiu um sono tranqüilo, acompanhado de um sorriso de paz no rosto.

Outro dia amanheceu e não se falava em outra coisa: era imortalidade por todo o lado.

À medida que o tempo passava, aumentavam ainda mais as expectativas. Será que alguém morreria naquele dia?

À meia-noite o plantão da televisão informava que aquele era mais um dia sem a ocorrência de nenhum óbito, aumentando ainda mais o falatório.

As pessoas agora falavam sobre o apocalipse; padres, freiras e teólogos procuravam uma explicação para o ocorrido.

O Papa preferiu não se manifestar, mas uma cartomante disse alguma coisa sobre o valete de paus e o fim da violência.

Mães e pais de santo agrdeciam aos Orixás, os astrólogos explicavam tudo pela posição de Marte em relação ao Sol e os psiquiatras acreditavam que o aumento no uso de anti-depressivos ajudaram a diminuir bruscamente os índices de suicídio e violência.
Já no terceiro dia esse negócio de ninguém mais morrer estava perdendo a graça: ninguém mais acreditava que a professora de matemática morreria antes da prova, por exemplo.

Políticos de todas as nacionalidades prometiam prosseguir lutando pelo povo, agora não mais pelo resto de suas vidas, mas "para todo o sempre".

Os médicos estavam divididos: enquanto alguns atribuíam tudo aos avanços da medicina, os médicos legistas não viam graça em nada daquilo, já estava ficando maçante não fazer nada o dia todo.
Em todo o globo as idéias de suicídio aumentavam proporcionalmente ao tédio; o que os filósofos achavam perfeitamente normal, tendo em vista o imesno vazio interior que a imortalidade trazia.
Petrônio começava a achar que se Deus realmente tivesse alguma dívida para com ele esta deveria ser paga com a morte, para diferenciá-lo dos demais.
Idealistas de todo o planeta previam imensos desastres ecológicos e acidentes de trânsito; enquanto os terroristas mais ousados planejavam chacinas e rebeliões.
O mundo estava na mais entediante paz.
Foi quando o Papa pensou em sacrificar-se em nome da humanidade, quem sabe até numa cruz, mas por fim achou que seria contra os dogmas da Igreja.

Os maiores problemas estavam na China, onde a superpopulação estava ainda mais super.

Os geógrafos não estavam acostumados a falar de natalidade sem a mortalidade, era tudo muito estranho.
Mas claro, chegou um dia em que alguém teve que morrer.

E vários morreram juntos, de fome.

A começar pelos coveiros e donos de funerárias.

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