segunda-feira, 9 de março de 2009

Oxigênio


Quando eu nasci, nem sabia, mas estava, desde o principio, consumindo oxigênio e produzindo gás carbônico. Isso, por si só, já me colocava em débito com o mundo: eu tinha a obrigação de fazer valer a pena. Eu tinha a obrigação, no mínimo, de ser feliz.
A gente nem sabe disso quando nasce, mas só por respirar, já estamos em débito.
Eu não colaborei tanto assim com a humanidade. Não descobri a cura de nenhuma doença, não inventei o avião e tampouco plantei muitas árvores.
Vim, usufruí e consumi de todo tipo de invenção tecnológica. Sem nunca ter colaborado em nada para o seu desenvolvimento. Nada.
E quem gostaria de saber de uma vida como a minha?
Existem bilhões de seres humanos na face da Terra neste momento. De cada um que nascer e morrer, poucos irão lembrar. Apenas os filhos e, quando muito, os netos. Uns poucos ficarão na memória, por algum tipo de genialidade ou fatalidade do destino. O resto vem, vive e vai embora. Usufrui de tudo e não colabora em nada.
E no final, ainda reclama do governo.
Ainda assim, sinto vontade de escrever sobre a minha vida. Se ninguém quiser ler, não há problema, em especial depois que eu houver partido. Não há problema.
Já terão dividido os meus bens, os meus livros, já terão rasgado as minhas fotos. Não me importo caso não leiam sobre a minha vida. Sobre a minha pacata e humilde vida.
Não foi uma vida rica em acontecimentos. Não escalei o Everest, não convivi com celebridades, não viajei o mundo com uma mochila nas costas e nem fui para a guerra. Nem convivi com as drogas: sequer as experimentei.
Mas foi uma vida rica em sentimentos. E a cada suspiro, inspirava ainda mais oxigênio. Aquele, que não ajudei a produzir, mas consumi sem parcimônia.
Aquele que os meus pulmões transformavam em gás carbônico e despejavam pelo mundo.
Enfim, morrerei em débito.

5 comentários: