segunda-feira, 30 de março de 2009

Nada


Eu...
E que serei eu, nesta vida?
O que delimita o que é mundo, o que sou eu?
Qual o limite exato entre o que sou e o que jamais serei?
Qual a célula de mim que faz fronteira com uma célula do mundo, que não me pertence?
Se é que algo me pertence e não o contrário: eu que pertenço a algo.
Não, não é possível ter tudo. E nem sequer a metade.
É possível ter apenas um fragmento do mundo e olhe lá: mesmo ele pode nos escapar das mãos a qualquer momento.
Não é possível ter todos: não é possível ter ninguém.
Cada qual pertence a si só, exclusivamente.
Não é possível ter bom senso e nem felicidade, mas é necessário persegui-los como se possível fosse.
Nem é possível ter um amor: só o que é possível é estremecer na presença de um certo alguém.
Todas as possibilidades são impossíveis: são apenas tentativas vãs de concretizarem-se.
Não é possível ser muito e nem tampouco ser nada: é preciso existir, querendo ou não.
Querer não conta. Existir ou não está acima de qualquer desejo.
O mundo é tão cheio e vivemos tão vazios.
E o vazio dói uma dor ambígua: plena e ao mesmo tempo oca, que preenche e corrói.
Cheios doemos menos. Por isso estamos sempre absorvendo tudo quanto nos aparece: quando cheios, as dores reverberam menos. Há pouco espaço para o eco.
Viver consiste em encher o cérebro com tudo o que o mundo pode oferecer: idiomas, notícias, conhecimentos diversos e hábitos repetitivos. Cheios, absorvemos melhor os impactos - os estragos são menores.
Viver consiste em encher o coração com tudo o que se puder experimentar: seja alegria, seja tristeza, seja candura, seja dureza.
Viver não é nada mais do que se encher de mundo de forma a camuflar-se.
E no final, dá nisso: nunca sabemos o que somos nós e o que é mundo.
Nunca sabemos nada.

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