sexta-feira, 10 de abril de 2009

Você e as estrelas


Quase no final da garrafa de whisky. Justo eu, que nunca fui chegada aos destilados.

Há dias que não tinha fome e nem frio. Só sede, muita sede.

Quando você me encontrou, eu estava na sarjeta, sejamos sinceros. Não há porque usar de eufemismos, afinal, o rei das metáforas e das delicadezas aqui é você. O rei da etiqueta e dos bons modos! Nem fumar você fuma!

Eu estava numa pior, emocionalmente estropiada, tentando colar os caquinhos que restavam do meu coração. E cola nenhuma dava jeito.

Enchendo a cara de whisky e os pulmões de nicotina.

Estômago, nem sei como ainda tinha um, tamanha a produção de suco gástrico. Isso para não falar dos meus nervos, também em frangalhos. Era essa a situação, sem tirar nem pôr.

Mas também, será que poderia ser diferente? Eu não sou do tipo que toma umas cervejinhas e fica alegre, cantarolante, engraçadinha. Sou do tipo que toma todas, provoca todo mundo e ainda por cima vomita no final. Com a paixão, acontece igual. Eu até me irrito quando vejo esses apaixonadinhos bobocas, que ficam rindo à toa e dizem sentir-se “levitando”.

Ah, por favor! Levitar! E desde quando a paixão tem poderes ascendentes? Desde quando desafia a lei da gravidade? Se apaixonar sim, mas levitar é para os fracos!

A paixão está muito mais para o contorcionismo do que para o salto em altura! A paixão é uma luta de boxe que acontece nas nossas entranhas. Não tem essa de “suspiros apaixonados”. Suspiros! Mas que suspiros, meu Deus? Se eu conseguisse respirar, já estava bom demais, quanto mais suspirar!

E mais um copo de whisky. E outro cigarro.

Levitar é para os fracos, sorrir é para os fracos, suspirar é para os fracos. Paixão mesmo é uma desgraceira. Uma descarga elétrica de 100.000 volts, que se não mata, aleija. Menos do que isso é frescura, paixonite, qualquer nome que se queira dar, menos paixão.

É quando um indivíduo se apaixona que ele descobre porque tem vísceras, porque é nelas que o parasita se instala. E para quem não sabe, eu digo: dói pra burro.

Eu estava em um grau de apaixonamento tão grave que qualquer palavra do ser amado adquiria um sentido todo mágico, especial, como se por trás de tudo o que ele dissesse houvesse, nas entrelinhas, uma mensagem subliminar só para mim. A voz, o cheiro ou a simples visão do ser amado, por um segundo que fosse, transformavam o meu coração em um trem desgovernado (e foi numa dessas de trem desgovernado que ele se espatifou todo, virando depois aquela coisa kitsch dos caquinhos).

Providências de cura, tentei de tudo, de medicamentos a estação de águas. Ficou faltando só o suicídio. E foi por pouco.

Os médicos não queriam me tratar. Diziam apenas “isso passa”. E daí se passa? Gripe também passa, mas para alívio corporal e apoio psicológico existem os analgésicos, anti-térmicos e uma imensa variedade de medicamentos. E olha que uma gripe dura só uns quatro, cinco dias. E nem dói tanto. E nem dói no corpo inteiro.

Não sei como fui cair nessa. De novo. Sou expert nisso, em paixões desastradamente mal sucedidas, grau nove na escala Richter. Poderia entrar no Guinness Book.

A você, imagino, o impacto foi grande. Deve ter pensado que eu era alguma espécie de atormentada crônica, dessas que passam a vida toda à base de remédios para os nervos. Desculpa se eu te assustei, mas você chegou no ápice. No ápice da derrocada, para ser mais específica.

Os médicos haviam me desiludido. A ciência, essa porcaria, não serve mesmo pra nada. Em matéria de amor, ainda somos primatas, com a diferença que os primatas não tinham que ouvir frases do tipo “o tempo é o melhor remédio”. Como se o relógio tivesse algum interesse em aliviar as nossas dores ou adiantar em um segundo que seja o nosso alívio. O relógio é um insensível.

Você me viu no final da garrafa de whisky. Nem te ofereci um gole, porque ela era toda minha. E eu ainda achava pouco.

Pelo menos eu me afogava em whisky, se há algum consolo. Era uma derrocada de primeira classe, não posso negar.

E você, sóbrio, do alto da experiência de quem já viveu emoções de levitar e de aleijar. Apesar do whisky, ainda lembro. Disse-me “paixão dói, mas não mata, fique fria”.

Ficar fria, eu. Uma floresta seca, bem no meio do incêndio.

Ao contrário dos relógios, as garrafas de whisky são sensíveis e tentam, tanto quanto podem, aplacar a nossa dor. Por isso, quase pedi mais uma. Você não deixou. Então, acendi mais um cigarro.

No dia seguinte, ressaca. Doeria tudo mesmo, fosse pelo álcool, fosse pela paixão. Com a diferença que o whisky me custou uns cem paus e a paixão é droga de fabricação caseira.

E você lá, com o seu frescor, o seu vigor, o seu sorriso. Você e o seu refrigerante, tomado de canudinho, da mesma forma que você engole a vida, a conta gotas. Você e o seu ar de sobrevivente, de quem superou as suas paixões e ficou sem seqüelas aparentes. Com a sua típica expressão de quem nunca tentou suicídio. Juro que você merecia um soco.

Você me veio com uma lição. Ótimo, você era mesmo uma boa alma. Nem me conhecia e já tentava salvar a minha vida, ou o que havia restado dela. E ainda me proibia de torrar mais cem paus em outra garrafa de whisky.

A sua lição era cósmica e ao menos me fez rir, o que já era de grande valia. Ou teria sido efeito do álcool?

De toda forma, você me contou histórias das estrelas. Seus nomes, suas origens, essas coisas todas. Esse papo de estrelas poderia me fazer apaixonar, se não estivesse já tão apaixonada. Se houvesse mais uma gota de paixão em mim, naquela noite, ela seria sua. Mas eu estava saturada.

As estrelas, dizia você, só brilham por conta do hidrogênio, seu elemento mais leve. Quando ele se exaure, elas param de brilhar. A idéia, eu estava bêbada, mas ainda não tão burra, era garantir certa dose de leveza à minha vida, para que eu continuasse a brilhar. Se é que eu já havia brilhado um dia.

Valendo-me da sua metáfora, eu já nasci estrela velha, repleta de urânio, impedindo o meu brilho. Com uma gravidade que jamais me fez voar, quanto menos brilhar. Minhas paixões, meu amigo, são sorrateiras. Não vivem lá no alto, me levando até as nuvens. Elas me levam ao meu esgoto particular, ao que há de mais podre e mais dolorido dentro de mim. Elas me arrastam junto ao chão.

Mas gosto de você e do seu tal hidrogênio. Você tenta até agora, meses depois, me convencer disso, dos efeitos milagrosos do hidrogênio para o coração humano.

Quem sabe um dia eu tente, só para ver como é que é. Para ver se eu ainda tenho jeito.

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